São várias as marcas deixadas pelo cancro do ovário. Muitas nunca se tornam visíveis, mas aquelas que se conseguem ver são o tema da exposição fotográfica ‘Cicatrizes na Primeira Pessoa’, um projeto da Associação MOG – Movimento Oncológico Ginecológico, que assinala o Dia Mundial do Cancro do Ovário e que utiliza o poder da fotografia para retratar mulheres com cancros ginecológicos, dando voz às suas histórias. Uma iniciativa que, refere Cláudia Fraga, Presidente da MOG, “ajuda, sobretudo, a combater o estigma relativo às marcas visíveis e invisíveis da doença no corpo e contribui para aumentar a autoconfiança e autoimagem das pessoas que passam por estas situações. É uma forma de humanizar a doença e também de aumentar a literacia relativamente aos cancros ginecológicos”.
Assinadas pelos fotógrafos Miguel Valle de Figueiredo e Sandra Carmo, as imagens desta mostra, que se realiza pela terceira vez, vão estar patentes no espaço de um hospital, uma estreia, depois das duas primeiras edições, que se realizaram no Museu da Fundação Oriente e no i3S, no Porto. Desta vez, a exposição, organizada em conjunto com a associação Unidas para Vencer, estará patente no Hospital São Francisco Xavier, em Lisboa, o que, segundo Cláudia Fraga, tem um significado especial. “A iniciativa aproxima pessoas com doença e profissionais de saúde, num contexto diferente do habitual, em que se dá ênfase a dimensões humanas e emocionais, e não só a aspetos clínicos.”
São imagens que mostram muito mais do que aquilo que capta a lente. “Quem vê caras, não vê cicatrizes… Estas imagens mostram aquilo que, habitualmente, não está à vista de todos. Olhando para os rostos destas mulheres, não vemos cicatrizes. É o poder da imagem a mostrar novas camadas de significado e a comunicar uma mensagem que gera empatia, identificação, e suscita uma reflexão sobre o assunto.” E, ao mesmo tempo, “constitui uma mensagem para quem vive com a doença, incentivando a não desistir do processo e aceitar um corpo diferente, porque são as cicatrizes que nos mantêm vivas. Estas são marcas de superação e sobrevivência. E muito ânimo alto por estarmos vivas.”
Aumentar o conhecimento e sensibilização para o cancro do ovário que, de acordo com os dados do Globocan, registou 682 novos casos e 472 mortes em 2022, é também outro dos grandes objetivos desta iniciativa. “O facto de haver desconhecimento sobre este cancro e de este ter sintomas inespecíficos (inchaço abdominal persistente, dor pélvica, sensação de enfartamento, alterações urinárias e intestinais) leva a que grande parte dos diagnósticos ocorra em fases avançadas da doença. Quanto mais abordarmos o tema, sob diferentes perspetivas e com diferentes iniciativas, mais as mulheres e os profissionais de saúde estarão atentos e poder-se-á contribuir para o diagnóstico precoce da doença”, reforça a presidente da MOG.
Estamos a falar, acrescenta, “de cancros que foram secundarizados, durante décadas, por serem doenças de mulheres. É fundamental alterar essa situação, agilizar o diagnóstico, fazer um encaminhamento célere das mulheres para exames complementares de diagnóstico e consultas de especialidade, garantir o acesso a equipas multidisciplinares e a terapêuticas inovadoras, para que possamos, em conjunto, contribuir para melhorar a qualidade de vida das mulheres com estas doenças”.

















