Mais de meia centena de cuidadores informais concentrou-se hoje, em Lisboa, pedindo ao Governo consenso político para a criação de um estatuto que englobe apoios pecuniários e que os reconheça como trabalhadores.
Pelas 15:00, os manifestantes partiram da Praça da Figueira, com destino ao Terreiro do Paço, munidos com balões e gritando palavras de ordem como: “Estatuto do cuidador informal já”.
“Os balões azuis e rosa representam os cuidadores das crianças e os roxos os cuidadores de doentes com Alzheimer, demência e também idosos. Os balões representam também cada pessoa que não pode estar presente na manifestação”, disse à Lusa uma das responsáveis do movimento de cuidadores informais, Sofia Figueiredo.
Para a manifestante, é “urgente” a criação do estatuto, uma vez que existem pessoas “que chegam ao limiar da pobreza, porque não têm os apoios necessários”.
Opinião semelhante tem Sílvia Alves, cuidadora informal há 13 anos, que defende a necessidade de consenso entre os partidos e a várias propostas de estatuto.
“As propostas políticas cobrem, de alguma forma, as necessidades, mas o ideal era que os partidos se juntassem de modo a recolher o melhor de cada proposta. São dois projetos-lei que têm tudo para andar para a frente”, sublinhou.
A cuidadora explicou, ainda, que além dos apoios pecuniários é necessário assegurar, entre outros aspetos, “a carreira contributiva e a flexibilização do horário de trabalho”.
“Somos obrigados a tomar decisões sem rede. Ninguém está preparado para ser cuidador. Tive de deixar a minha vida laboral e aprender a ser fisioterapeuta, enfermeira, médica e ainda fui professora do meu filho durante o primeiro ciclo”, vincou.
Por sua vez, Anabela Lima, uma das primeiras subscritoras da petição para a criação do estatuto, lamentou o valor dos produtos alimentares e de saúde, especialmente, dedicados aos doentes.
“A minha vida acabou há nove anos, neste momento, sou apenas cuidadora do meu marido. Tenho de pedir ajuda à minha irmã e aos meus filhos para pagar as despesas. O centro onde o meu marido está custa 500 euros, fora os cremes, que custam mais de 10 euros cada, as fraldas, os suplementos e, por exemplo, cada caixa de iogurtes custa 16 euros. É muito complicado”, referiu.
Anabela Lima lamentou, também, a falta de formação e informação sobre as doenças.
“Os nossos familiares, muitas vezes, fazem disparates e nós não somos olhados de uma maneira nada agradável. É humilhante ouvir comentários acerca de uma doença que desconhecem”, disse.
Já Nélida Aguiar, cuidadora há 35 anos e membro do grupo europeu de trabalho para as pessoas com demência, admitiu ter “vergonha” de Portugal não ter um estatuto semelhante ao dos restantes países da Europa.
“Não temos respostas por parte do Estado, para além da rede de cuidados continuados, ou seja, temos ajuda entre as 09:00 e as 16:00, mas um dia tem 24 horas”, vincou.
Na chegada ao Terreiro do Paço, os cuidadores deixaram a promessa de continuar com novas formas de luta, caso o Governo não dê resposta às reivindicações apresentadas.
Em 23 de maio, diplomas do BE, PCP, CDS-PP e PAN para reforçar medidas de apoio ao cuidador informal e às pessoas em situação de dependência baixaram, sem votação, à comissão de Trabalho e Segurança Social por 60 dias.
No plenário realizado na altura, o deputado José Soeiro, disse que o projeto de lei do BE cria o Estatuto do Cuidador Informal prevendo “o descanso” dos cuidadores, o direito à reforma contabilizando o tempo de prestação de cuidados e o reforço dos apoios sociais.
o projeto de lei do PCP, por sua vez, prevê medidas que “respondam à situação de todos os cuidadores por igual”, propondo ainda o reforço de medidas de apoio às pessoas em situação de dependência.
Já o projeto de resolução do CDS-PP recomenda ao Governo que considere as demências uma “prioridade social e de saúde pública” e elabore um “Plano Nacional de Intervenção”, enquanto o projeto do PAN recomenda também ao Governo a adoção de medidas de apoio aos cuidadores informais.


















