Os médicos são hoje muito técnicos e pouco dotados de conceito humanista, de intervenção social, diz Salvador Massano Cardoso em entrevista à Revista Diabetes – Viver em Equilíbrio. Sendo que Portugal está à frente dos países com as taxas mais elevadas de diabetes, o seu papel político e interventivo, com medidas regulamentadas, poderia evitar as complicações graves da doença e os seus custos, e fomentar a prevenção da doença que considera um “cancro” social.
Face ao aumento crescente da diabetes em Portugal, Salvador Massano Cardoso, Professor Catedrático de Epidemiologia e Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina de Coimbra, defende que, perante esta situação «gravíssima», o papel dos médicos deve ir além do diagnóstico e do tratamento da diabetes, ainda que os portugueses sejam dos europeus com a mais baixa taxa de adesão à terapêutica.
«Os médicos deveriam denunciar a alimentação que é feita e como certos produtos são publicitados para cativar as pessoas, sobretudo as crianças. Não é só prescrever uma insulina, não é só prescrever um antidiabético oral, não é só prescrever um conjunto de medidas terapêuticas, mas também devem obrigar os responsáveis políticos de diversas áreas a intervir, desde as condições de trabalho à venda de certos produtos passando pela denúncia da publicidade a certos produtos. Certas atividades têm de ser regulamentadas (…) Se não houver medidas políticas não se consegue», defende.
Caso contrário, as consequências continuarão a agravar-se. «A diabetes é um ‘cancro’ social da nossa sociedade. O cancro tem cura ou muitos deles têm. A diabetes não tem cura, pelo menos por enquanto. É um “cancro” em termos de sofrimento individual, de consequências para o indivíduo, para a sua família, para a sociedade e um fator de empobrecimento económico para o país».
É preciso mudar os estilos de vida, a forma como se vive, como se trabalha, fomentar o desporto, contrariando a «imobilidade social dos tempos modernos» e promovendo a saúde pública em Portugal. Para Massano Cardoso, «todas as vertentes da vida humana ganham com o desporto: prevenção das doenças cardiovasculares, da toxicodependência, do cancro, da obesidade, do alcoolismo, do tabagismo. Deveria haver uma política criada para fomentar, criar e premiar o desporto, e não só encher o olho e o clubismo tribal com as práticas de bancada».

















