Com evidência robusta na abordagem da doença pulmonar obstrutiva crónica, a Reabilitação Respiratória já se estabelece também noutras doenças respiratórias crónicas e até com benefícios em alguns doentes respiratórios agudos, desde que devidamente estabilizados e geralmente na ótica de continuidade de cuidados. Melhorar o acesso a este tratamento não farmacológico pode passar pela disponibilização de programas na comunidade, fora do contexto hospitalar.
“A reabilitação respiratória define-se por um tratamento não farmacológico, multidisciplinar, baseado numa avaliação completa do doente seguida de intervenções personalizadas que inclui, mas não se limita, o treino de exercício, educação e modificação de comportamentos, desenhado com o intuito de promover a condição física e psicológica de doentes com doença respiratória e promover a adesão a longo-prazo de comportamentos saudáveis”, descreve Carlos Figueiredo, em representação da Comissão de Trabalho de Reabilitação Respiratória da Sociedade Portuguesa de Pneumologia.
O exercício (aeróbio, e de fortalecimento muscular), as técnicas respiratórias, a educação, a abordagem comportamental (cessação tabágica, vacinação, atividade física, até a melhoria da higiene do sono), o apoio nutricional, mas também, quando necessário, a gestão de secreções com técnicas e dispositivos, a avaliação e acompanhamento psicológico, o treino dos músculos inspiratórios, as técnicas de deglutição e fala/voz, a abordagem social, a abordagem ocupacional, sempre com personalização e centrado na pessoa com doença respiratória, são algumas das intervenções apontadas pelo pneumologista que cabem no conceito de Reabilitação Respiratória.
Esta intervenção não substitui o tratamento farmacológico prescrito para a abordagem das doenças respiratórias, contudo, representa uma terapêutica multifacetada não farmacológica adjuvante para o doente respiratório crónico que se mantenha sintomático ou com exacerbações/crises apesar de terapêutica otimizada. “Com níveis de evidência robusta na Doença Pulmonar Obstrutiva Crónica estável ou pós-exacerbação (começando até no final do internamento); mas com crescente estabelecimento também nas restantes doenças respiratórias crónicas destacando a asma, as bronquiectasias, a fibrose quística, a patologia do interstício pulmonar e o cancro do pulmão, a Reabilitação respiratória posiciona-se de uma forma clara como um dos tratamentos mais custo-eficazes disponíveis apesar do seu escasso e difícil acesso”, descreve Carlos Figueiredo.
No doente internado/agudo, desde a enfermaria até aos cuidados intensivos, “existe também lugar para utilização de componentes da Reabilitação Respiratória para otimizar e melhorar a evolução clínica, nomeadamente, a gestão de secreções, a educação nos seus vários tópicos, a promoção de hábitos de vida saudáveis como a cessação tabágica e vacinação, exercícios aeróbios e fortalecimento muscular (potenciando a redução da perda de massa muscular frequente nos quadros de agudização da doença respiratória crónica)”. Nestes doentes, “a situação clínica deverá encontrar-se estável e com terapêutica dirigida à doença idealmente maximizada e otimizada”, sublinha o especialista.
À luz das evidências provenientes da investigação clínica, os ganhos da Reabilitação Respiratória “são diversos, significativos e multifatoriais”. Carlos Figueiredo destaca “a melhoria dos sintomas, a melhoria da qualidade de vida, o aumento da capacidade de exercício, e alguns dados apontam para redução da mortalidade”.
Do ponto de vista pessoal, familiar e social, a Reabilitação Respiratória está associada a uma redução das exacerbações, da necessidade de internamentos, do número de idas ao serviço de urgência, assim como a uma redução dos custos associados à da gestão da doença respiratória crónica, a uma maior integração na vida laboral ativa, a menor absentismo laboral e escolar, entre tantos outros benefícios.
Embora a realidade esteja aquém das expectativas, uma vez que a Reabilitação Respiratória está disponível apenas a cerca de 1% dos doentes respiratórios, Carlos Figueiredo prefere destacar os avanços positivos e os esforços que têm sido feitos no sentido de fomentar o crescimento dos já existentes e potenciar a criação de novos programas de Reabilitação Respiratória a nível nacional. “A Comissão de Trabalho de RR da SPP tem-se posicionado na promoção ativa da RR em vários sectores e de várias formas e iniciativas nacionais e com ligações internacionais também”. Principalmente na divulgação dos benefícios desta intervenção com o intuito de aumentar a consciencialização dos profissionais e da comunidade. “Consideramos ser esse o primeiro passo para aumentar a capacidade de resposta e também a adesão das pessoas com doença respiratória crónica, sendo a informação e literacia em saúde uma das ferramentas mais eficazes”.
Efetivamente “a palavra-chave quando se fala de RR é: acesso. Torna-se evidente a necessidade de sair de um modelo centrado no centro especializado para conseguirmos efetivamente aumentar o acesso. Nesta ótica, os cuidados de saúde primários e as redes comunitárias até de domicílio podem ser uma efetiva estrutura que permita um aumento do acesso, com a formação adequada e disseminada por todos os locais potenciais e por uma boa articulação com os centros especializados / hospitais / centros de investigação de forma a criar uma rede robusta, forte e interligada/conectada. As entidades políticas devem ser integradas nesta rede porque sem dúvida que tem o papel de permitir o financiamento, manutenção e promoção ativa de um tratamento multidimensional que trará benefícios de ganhos em saúde para cada pessoa que tenha acesso, mas também benefícios sociais e económicos para cada local/freguesia/região que beneficiar de programas de RR”, sugere Carlos Figueiredo.


















