Portugal pode ter pouco mais de um trabalhador por pensionista, alertam especialistas
Portugal está já entre os três países mais envelhecidos do mundo e aproxima-se de um cenário em que poderá existir pouco mais de um trabalhador por pensionista. O alerta foi deixado na III Conferência Verlingue Expertise, dedicada ao tema da longevidade e aos desafios sociais, económicos e laborais associados ao envelhecimento da população.
Sob o mote “Contratempo”, a iniciativa promovida pela Verlingue Portugal reuniu especialistas de várias áreas para discutir a necessidade de antecipar riscos, reforçar a proteção social e investir na prevenção, numa sociedade onde as carreiras profissionais e os percursos de vida são cada vez menos lineares.
Na sessão de abertura, o presidente do Conselho de Administração da Verlingue Portugal, José Félix Morgado, sublinhou que “a longevidade não é apenas uma conquista demográfica, é um desafio coletivo que exige novas respostas ao nível da proteção, da prevenção e da sustentabilidade ao longo de todo o ciclo de vida”.
Já o presidente do Instituto da Segurança Social, Pedro Corte Real, traçou um retrato preocupante da realidade nacional, revelando que atualmente existem cerca de 2,63 trabalhadores ativos por cada reformado, número que tende a diminuir devido ao envelhecimento da população e à redução da força de trabalho.
Segundo o responsável, este contexto exige o reforço da sustentabilidade do sistema de pensões, defendendo uma maior articulação entre os pilares público, ocupacional e individual da reforma, bem como mais literacia financeira e soluções de poupança e proteção.
A conferência destacou ainda o impacto da longevidade no mercado de trabalho. Alexandra Andrade, da Adecco Portugal, referiu que os trabalhadores valorizam cada vez mais segurança, bem-estar e benefícios não salariais, sobretudo num contexto em que coexistem até cinco gerações nas empresas.
Também Alexandra Cordeiro, da Verlingue Portugal, defendeu uma mudança de paradigma nas organizações, apostando mais na prevenção, saúde física e mental e literacia financeira, de forma a reduzir riscos, absentismo e perdas de produtividade.
O encontro abordou igualmente os riscos associados a carreiras mais longas e fragmentadas, sobretudo entre trabalhadores independentes. Pedro Mota Soares, vice-presidente da Caixa de Previdência dos Advogados e Solicitadores (CPAS), alertou para a crescente vulnerabilidade financeira e para a necessidade de reforçar mecanismos complementares de proteção.
Na área académica, Céline Abecassis-Moedas, da Universidade Católica Portuguesa, destacou a importância da investigação e da ligação às empresas para responder aos desafios do envelhecimento, defendendo ainda modelos de aprendizagem intergeracional.
O encerramento ficou marcado pela intervenção de Miguel Morgado, professor da Universidade Católica Portuguesa, que lançou uma reflexão sobre os impactos sociais e económicos do aumento da esperança média de vida.
“Estamos preparados para viver mais tempo num mundo mais incerto?”, questionou, apontando fenómenos como a solidão, a redução da natalidade e o aumento dos divórcios como sinais de profundas transformações sociais que obrigam a repensar os modelos de proteção e apoio ao longo da vida.



















