As teleconsultas em Cabo Verde reduziram a um terço as deslocações de doentes das ilhas para consultas nos hospitais, sendo a neurologia a especialidade mais procurada, o que despertou a curiosidade de outros países que utilizam a telemedicina.
Em entrevista à agência Lusa, a diretora do Serviço Nacional de Telemedicina em Cabo Verde, Vanda Azevedo, recordou que, devido à condição arquipelágica do país, a telemedicina cedo se apresentou como uma solução para a prestação de cuidados médicos à distância.
A telemedicina em Cabo Verde nasceu em 2009 com um projeto que envolvia este país e o Hospital Pediátrico de Coimbra, nomeadamente o serviço do cardiologista pediátrico Eduardo Castela.
De Coimbra chegava a ajuda aos cardiologistas cabo-verdianos, uma vez que na altura não existiam cardiologistas pediátricos.
“Foi uma iniciativa muito interessante que nos despertou mais para a telemedicina, como alternativa às nossas dificuldades. Além de dar um diagnóstico mais correto às crianças, também nos ajudou a ganhar uma autonomia em cardiologia pediátrica”, referiu.
O projeto persiste até hoje, mas o grande salto deu-se em 2012, quando a telemedicina passou a ser pensada para dar resposta às ilhas sem especialistas.
“A falta de recursos humanos é universal. Aqui [em Cabo Verde] também é, mas fundamentalmente não há necessidade de especialistas em todas as ilhas, porque não há massa crítica, não há treinamento”, explicou.
Para Vanda Azevedo, cardiologista, “as teleconsultas vieram aliviar esse problema e melhorar o acesso de toda a população às especialidades médicas”.
Atualmente, todas as ilhas cabo-verdianas estão cobertas pelo serviço de telemedicina, algumas com vários postos.
Existem 14 postos de telemedicina e dois hospitais centrais que servem de referência. Em cada ilha há um centro, mas algumas têm dois: Santo Antão (Porto Novo e Ribeira Grande), São Nicolau (Ribeiras Brava e Tarrafal de São Nicolau) e Fogo (Mosteiros e São Filipe).
Os postos dispõem de consultas nas especialidades que existem nos hospitais centrais Agostinho Neto (Praia, na ilha de Santiago) e Batista de Sousa (em São Vicente).
Em 2017, este serviço de telemedicina realizou consultas em 24 especialidades, sendo a neurologia a mais procurada e que só existe no Hospital Agostinho Neto.
Mas esta é uma realidade diferente das outras experiências no mundo em que as especialidades preferenciais são a cirurgia, a ortopedia, a cardiologia.
“Em Cabo Verde aconteceu uma coisa estranha, e que é até motivo de estudo de colegas que trabalham a problemática da telemedicina: A neurologia tem o quadruplo ou quíntuplo das teleconsultas das outras especialidades. Segue-se a ortopedia, a cardiologia e a urologia”.
Apesar das dificuldades com os recursos humanos, o maior desafio para a telemedicina, este serviço realiza entre 500 a 600 teleconsultas por ano.
E este número evita grandes despesas, como as que existem no caso dos doentes que têm de se deslocar da sua ilha para realizar consultas nos hospitais centrais.
“Temos grandes despesas com as deslocações para os centros hospitalares. Quando fazemos as teleconsultas, estamos a triar os doentes que devem vir para os hospitais centrais e, dessa forma, otimizamos as evacuações”, declarou.
Isto porque “o médico que faz a teleconsulta – que é feita na presença do médico assistente e do doente – é que determina se é preciso ou não ir a um hospital central”.
Vanda Azevedo sublinhou que graças a estas teleconsultas, as evacuações para consultas de especialidade nos hospitais centrais caíram para um terço. E também o tipo de consultas que chegam aos hospitais mudou.
“As neurologistas, que são as especialistas que mais teleconsultas fazem, dizem que esta triagem de doentes [via teleconsulta] melhorou a consulta, porque agora só vai para a neurologia quem precisa de fazer uma tomografia, uma ressonância ou um eletrencefalograma”, explicou.
Dessa forma, prosseguiu, as teleconsultas “estão a filtrar muitos dos casos que vinham por demanda própria ou encaminhados pelos médicos dos centros”.
Sobre esta tão elevada procura da neurologia, a médica não tem uma explicação. “Cabo Verde tem as suas especificidades”, disse.



















