O Governo de Cuba anunciou, no passado dia 14 de novembro, o fim da participação no programa “Mais Médicos”, devido às “declarações ameaçadoras” de Bolsonaro, e os brasileiros parecem dividir-se entre as declarações do Presidente eleito.
O político da extrema-direita, que irá assumir a Presidência do Brasil a 01 de janeiro de 2019, descreveu os médicos cubanos como “escravos de uma ditadura”, declarações que caíram mal no Governo de Havana.
Porém, Elvira Braz, uma empresária de 47 anos, a atuar no ramo de eventos no Rio de Janeiro, afirma concordar com as declarações do recém-eleito Presidente brasileiro, admitindo que chega a desconfiar que alguns dos profissionais cubanos sejam realmente médicos.
“Eu acho que o Brasil forma médicos suficientes para poder atender a população brasileira sem necessidade de médicos cubanos. Pode haver realmente pessoas que sejam médicas mas eu também acho que vieram pessoas que não são médicas”, declarou a empresária.
Elvira referiu ainda não concordar com o sistema de pagamento de salários dos médicos cubanos. Segundo os acordos entre o Brasil, Cuba e a Organização Pan-americana da Saúde (OPAS), os profissionais de saúde cubanos recebiam 30% de seu salário no Brasil e o valor restante era destinado ao governo de Havana, o que Bolsonaro considerou “inaceitável”.
“Você concordaria que o seu salário fosse de 10 mil reais, por exemplo, e no final ficasse só com três mil reais? Concordaria em trabalhar para uma empresa dessas? Eu não. Esse dinheiro que vai para Cuba, não volta a ser injetado na economia brasileira. No Brasil, as leis trabalhistas são muito rigorosas e eu gostava de saber como é que elas aceitam que médicos se sujeitem a este tipo de condições”, declarou Elvira.
“Eu, como empresária, sou obrigada a obedecer às leis daqui, e porque é que os cubanos que aqui trabalham não podem obedecer às leis brasileiras?” questionou a empresária apoiante de Jair Bolsonaro.
Já Rita Seabra, ao contrário de Elvira, acredita que o Brasil ficará a perder com a saída dos médicos cubanos. A empresária portuguesa de 29 anos, a viver no Brasil com visto permanente, defende a qualidade da medicina de Cuba e garante que a presença daqueles profissionais de saúde eram uma mais-valia para as áreas remotas brasileiras.
“Com certeza que (o Brasil) ficará a perder e muito. O programa ‘Mais Médicos’ comprovadamente dava ao povo brasileiro, especialmente aos que moravam em localidades fronteiriças ou na zona da Amazónia, consultas e uma relação mais próxima entre médicos e pacientes e, também comprovadamente, garantiam uma economia de dinheiro público ao diminuir o número de internamentos”, afirmou a empresária do ramo artístico.
O envio de médicos cubanos para o exterior é uma tradição de longa data de Cuba, mas é também uma das principais fontes de proveito económico para o país – do qual se estima um retorno de mais de nove mil milhões de euros por ano.
Perante a repentina situação de ausência de médicos de Cuba em determinadas regiões, o atual Ministério da Saúde do Brasil, liderado Gilberto Occhi, apressou-se a arranjar uma solução de emergência para suprir a ausência dos profissionais cubanos.
Dessa forma, foram disponibilizadas 8.517 vagas para um novo edital do programa ‘Mais Médicos’, a serem ocupadas por médicos brasileiros inscritos no conselho regional de medicina ou com diploma revalidado no país, e que estejam disponíveis a atuar em 2.824 municípios do país, que eram anteriormente ocupadas por médicos da cooperação com Cuba.
Os profissionais do ‘Mais Médicos’ recebem uma bolsa de formação, no valor de 11,8 mil reais (cerca de 2.600 euros) e uma ajuda de custo inicial para deslocações para o município de atuação, informou ainda o Governo do país sul-americano.
Além disso, todos os profissionais têm a moradia e a alimentação custeadas pelas prefeituras brasileiras. Em 2017, a pasta da Saúde reajustou o valor da bolsa anual para os médicos participantes e concedeu também um aumento de 10% nos auxílios para moradia e alimentação dos profissionais de saúde do programa.
Segundo a organização multilateral OPAS, a previsão é de que os 8.332 médicos cubanos que atualmente estão no Brasil deixem o país até ao próximo dia 12 de dezembro.
Jair Bolsonaro ofereceu asilo a todos os profissionais de Saúde que queiram permanecer em território brasileiro.



















