O sistema de saúde em Portugal atravessa, em 2026, um período de crescente pressão e transformação, marcado por um aumento global das reclamações e por uma mudança significativa no foco da insatisfação dos utentes.
De acordo com o Barómetro Trimestral do Estado da Saúde em Portugal, desenvolvido pela Consumers Trust Labs, foram registadas 1.440 reclamações no Portal da Queixa entre janeiro e março de 2026, o que representa um crescimento de 8% face ao mesmo período do ano anterior.
Os dados revelam uma tendência clara: o setor privado passou a concentrar a maioria das reclamações, com 75,49% do total (1.087 ocorrências), registando um aumento expressivo de 18,93%. Este crescimento reflete a maior procura por alternativas ao Serviço Nacional de Saúde, mas também evidencia fragilidades no sistema privado.
Entre os principais motivos de queixa estão a qualidade do atendimento clínico (39%) e as questões financeiras e de cobrança (24,62%), indicando uma crescente exigência dos utentes quanto à transparência e aos custos dos serviços.
No setor público, registou-se uma diminuição de 15,55% nas reclamações, totalizando 353 casos. Esta redução está associada, em parte, a alterações no acesso aos cuidados de saúde, como o reforço da triagem através da SNS 24 e iniciativas como o programa “Ligue Antes, Salve Vidas”.
Ainda assim, persistem problemas estruturais. A qualidade do atendimento clínico representa 56,85% das reclamações, evidenciando falhas na prestação de cuidados e no acompanhamento dos utentes.
As urgências mantêm-se como um dos principais pontos críticos do sistema, representando 17,30% das reclamações em contexto urgente. A especialidade de Obstetrícia lidera o volume de queixas (29,82%), seguida da Pediatria (10,53%), áreas particularmente sensíveis e com forte impacto social.
A reorganização das urgências, iniciada em 2026, procura dar resposta a estes desafios, mas tem gerado contestação e preocupações quanto à capacidade de resposta das unidades de saúde.
O estudo revela também um perfil claro dos reclamantes: maioritariamente mulheres (67,48% no setor privado e 59,48% no público), com destaque para a faixa etária entre os 35 e os 44 anos. Trata-se de um público mais informado, digitalmente ativo e com menor tolerância à ineficiência dos serviços.
Segundo Pedro Lourenço, os dados confirmam que o sistema de saúde português está numa fase de transição. Enquanto o setor público demonstra alguma melhoria na gestão das reclamações, o setor privado enfrenta uma “crise de crescimento”, marcada por sobrecarga e aumento da conflitualidade, especialmente em questões financeiras.
As perspetivas para 2026 apontam para desafios significativos, nomeadamente a sustentabilidade dos recursos humanos, a resolução de conflitos laborais e a necessidade de reforçar a confiança dos utentes.
Sem uma resposta estrutural articulada entre os setores público e privado, existe o risco de aprofundar desigualdades no acesso aos cuidados de saúde, tornando a qualidade do atendimento cada vez mais dependente da capacidade financeira e da literacia dos cidadãos.



















