A descontinuidade de cuidados após a alta hospitalar está a comprometer a recuperação de pessoas que desenvolvem afasia na sequência de um acidente vascular cerebral (AVC). O alerta é do IPAFASIA – Instituto Português da Afasia, que sublinha a necessidade urgente de reforçar respostas estruturadas no período pós-AVC e integrar a teleterapia como complemento regular de acompanhamento.
No mês em que se assinala o Dia Nacional do Doente com AVC, a 31 de março, a associação defende que a recuperação não deve ser vista apenas como estabilização clínica. A afasia, uma condição que afeta a capacidade de comunicar — incluindo falar, compreender, ler e escrever — pode persistir para além dos primeiros meses e assumir um carácter crónico, exigindo intervenção prolongada, apoio psicossocial e envolvimento das famílias.
Em Portugal, estima-se que cerca de 40 mil pessoas vivam com afasia, frequentemente resultante de um AVC. Apesar disso, o IPAFASIA considera que a resposta estruturada após a alta hospitalar continua a ser insuficiente, com falhas no acesso a cuidados de reabilitação especializados.
Neste contexto, a teleterapia surge como uma solução estratégica para garantir continuidade de cuidados. A intervenção à distância permite ultrapassar barreiras geográficas e responder a situações de mobilidade reduzida, assegurando acompanhamento regular e contribuindo para reduzir desigualdades no acesso a terapeutas da fala. Segundo o IPAFASIA, esta abordagem pode manter a qualidade clínica quando realizada por profissionais qualificados, além de promover uma prática terapêutica mais intensiva e envolver as famílias no processo de reabilitação.
Um estudo desenvolvido pela associação, em parceria com o Hospital Pedro Hispano, aponta que, embora a fase aguda do AVC seja globalmente bem avaliada, o momento da alta hospitalar constitui um ponto crítico no percurso de recuperação. Foram identificadas lacunas no planeamento da continuidade terapêutica, bem como ausência de recomendações estruturadas para reabilitação em vários casos.
Após o regresso a casa, muitos doentes deixam de ter acompanhamento regular em terapia da fala e não dispõem de apoio psicológico, mesmo enfrentando impactos emocionais significativos. O estudo evidencia ainda desigualdades no acesso aos cuidados, dependência do apoio informal das famílias e falta de informação clara e adaptada sobre a afasia e o processo de recuperação.
Para além disso, persistem barreiras estruturais e sociais, incluindo estigma e desconhecimento generalizado sobre a afasia, fatores que dificultam a inclusão destas pessoas na comunidade.
Meses após o AVC, muitos doentes continuam a enfrentar limitações na comunicação, com impacto direto na autonomia, participação social e qualidade de vida, reforçando a ideia de que a recuperação não termina com a alta hospitalar.

















